O problema da estória

 


Estórias são equipamentos para a vida.

~ Kenneth Burke ~


Dia após dia, procuramos uma resposta para a questão eterna que Aristóteles propôs em Ética: como o ser humano deve viver sua vida? Historicamente, a humanidade procurou a resposta de Aristóteles nas quatro sabedorias — filosofia, ciências, religião, arte — tentando compreender cada uma delas para juntá-las em um significado digno de ser vivido.

    A estória não é apenas nossa mais prolifera forma de arte, como também rivaliza com todas as outras atividades — trabalhar, comer, exercitar-se — por nossas horas acordados, contamos e ouvimos estórias tanto quanto dormimos e até sonhamos com estórias. O mundo de hoje consome filmes, romances, teatro e televisão em tanta quantidade e com uma fome tão voraz que as artes da estória viraram a principal fonte de inspiração da humanidade, enquanto ela tenta organizar o caos e ter um panorama da vida. Isso é um reflexo da necessidade profunda do ser humano em compreender os padrões de viver, não meramente como um exercício intelectual, mas como uma experiência pessoal e emocional.


A ficção dá à vida sua forma.

~ Jean Anoilh ~


Alguns veem essa ânsia por estórias apenas como entretenimento, uma fuga da vida em vez da sua exploração. Ser entretido é imergir na cerimônia da estória para um fim intelectual e emocionalmente satisfatório. Quando esse significado se aprofunda, o público é levado à satisfação suprema dessas emoções. Cartarse.

Catarse: Para Aristóteles, o teatro tinha para o ser humano a libertação, pois quando via as paixões representadas, conseguia se libertar delas. Essa purgação ou purificação tinha o nome de catarse, que era provocada no público durante e após a representação pela plateia através das diversas emoções transmitidas no drama.

    A estória não é uma fuga da realidade, mas um veículo que nos carrega em nossa busca pela realidade, é nossa melhor tentativa para descobrir algum sentido na anarquia da existência. Ainda assim, enquanto o alcance expansivo da mídia nos dá agora a oportunidade de mandar estórias através das fronteiras e linguagens para centenas de milhões, a qualidade vem se desgastando. Ocasionalmente lemos ou assistimos trabalhos excelentes, mas na maior parte do tempo nos cansamos de procurar algo de qualidade. Por muitas vezes desistimos de romances no meio da leitura, e por romance, entende-se por narrativas longas, ou desistimos de filmes por sofrermos uma decepção.

    Uma cultura não pode evoluir sem uma narrativa honesta e poderosa. Quando uma sociedade experimenta repetitivamente pseudo-estórias ocas e envernizadas, ela se degenera. Precisamos de sátiras e tragédias verdadeiras, dramas e comédias que iluminem os cantos mais sombrios da psique humana e da sociedade. Estórias benfeitas são aquelas que trazem a honestidade do autor. Não ter pressa na hora de escrever é fundamental. Não é porque alguém consegue escrever páginas e mais páginas por dia que isso seja necessariamente bom, afinal, 100% de tudo o que se escreve é algo inaceitável. Mas, como diria Gandalf "toda boa estória só precisa de um pouco de polimento".

    Assim como toda boa arte, se deseja escrever é entender que essa arte é um ofício que requer, assim como todo trabalho, estudo e dedicação constante. Após anos de diligência, você precisa fundir seu conhecimento com a sua criatividade. Autoconhecimento é a chave, a vida é uma reflexão das nossas reações à vida. Sobre a técnica, o novato confunde habilidade com simplesmente sua assimilação inconsciente dos elementos da estória a partir de todo romance, filme ou peça que ele já teve à sua frente. Enquanto escreve, ele combina seu trabalho por tentativa e erro. A estória imita a vida, pois valores estão na narrativa, nos personagens, pelo que eles lutam, tudo isso gera verossimilhança na estória e nos personagens.

    A causa final do declínio da estória é muito mais profunda. Os valores atribuídos são a alma da arte. O escritor molda sua estória ao redor da percepção das coisas a sua volta. A estória vista de fora para dentro é necessária para aprender a técnica, no entanto, a estória contada ao público precisa ser contada de dentro para fora.

    O que criamos para o mundo é o que ele nos pede, estória. Hoje e sempre. No entanto, talento literário não é o suficiente. A estória exige tanto imaginação vívida quanto pensamento analítico poderoso. Autoexpressão nunca é um problema, pois, intencional ou não, todas as estórias, honestas e desonestas, inteligentes ou bobas, espelham fielmente seu autor, expondo sua humanidade ou a falta dela. É mais do que necessário conhecer a fórmula de se contar a estética, caso contrário, o escritor ficará estafando ao escrever. Nunca esqueça que, de todo o esforço criativo usado para concluir uma obra, 80% ou mais disso é de esforço e sangue no papel.



BIBLIOGRAFIA:

Story: substância, estrutura, estilo e os princípios da escrita de roteiro. ROBERT MCKEE

https://www.significados.com.br/catarse/


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