Conto - Cabelo

 



Cabelo


Lívia Rodrigues era considerada uma mulher de sorte.

    Todos os dias, ao voltar do trabalho, ela costumava ouvir de seus colegas a sorte que tivera ao conseguir um lugar próximo do trabalho, e ainda por cima, no centro da cidade. Alguns de seus colegas diziam que a razão por conseguir o apartamento se dava pelo incidente de meses antes de a propriedade ser colocada à venda. Acontece que no passado a antiga proprietária era uma jovem chamada Ana, havia sido brutalmente assassinada, o culpado nunca foi encontrado.

      Todavia, não seria apenas um incidente que faria Lívia renunciar a uma ótima compra.

     Lívia não era admirada apenas por sua sorte, mas sim por seu longo e dourado cabelo cacheado. Os cachinhos de Lívia eram dourados, como se fosse ouro, os cabelos dela alcançavam seus tornozelos, eram cachos fechados, tipo 4A. Quando criança, Lívia sofria nas mãos de uma mãe rigorosa cujo único intuito era fazer com que Lívia vivesse o que ela nunca pôde. Sua mãe a forçava a participar de concursos de beleza, a forçava a realizar tratamentos de pele, mas o maior troféu que sua mãe exibia com orgulho eram os longos cabelos da filha. A mãe de Lívia passava horas procurando os produtos perfeitos e ainda mais tempo cuidando dos cabelos da filha. Realizava cronogramas capilares mensais e não perdia um único dia, não importava o quanto Lívia estivesse cansada ou tentasse se esconder, sua mãe sempre a encontrava.

   O cabelo de Lívia nunca foi cortado, o tratamento que sua mãe realizava auxiliou no crescimento exagerado. Enquanto crescia, Lívia se olhava no espelho e a única coisa que via era a figura materna, com as mãos em seus ombros de maneira possessiva, os cachos sempre perfeitos caídos por seus ombros, o objeto de adoração da mãe. Quando sua mãe morreu de um infarto repentino, Lívia imaginou-se cortando os cabelos, no entanto, nunca o conseguiu fazê-lo.

     Após a morte de sua mãe, Lívia foi abençoada pela sorte.

     — Eu gostaria de ter toda essa sorte.

     Ela ouviu o comentário de uma de suas colegas, era a primeira vez que aquele tom de voz seco e levemente amargurado a deixava desconfortável, e assim como os outros comentários, Lívia ignorou. Ao final do expediente, enquanto voltava para o seu carro sentiu-se observada, não era a primeira vez que aquela sensação pavorosa a acompanhava, às vezes, era uma sensação passageira e em outras ocasiões, a sensação perdurava por dias.

    Uma vez em casa, ela pôde finalmente abandonar aquela personagem em que estava presa, Lívia jogou-se no sofá e seu longo cabelo tocou o chão, observá-lo a fez lembrar que teria que lavá-lo, o que significava que teria que reservar um dia inteiro para isso, lavá-lo significava hidratar, finalizar e pelo comprimento… Estava se tornando cada dia mais difícil. Ela tocou os fios grossos, seus dedos deslizaram como se os fios fossem feitos de seda, aquele velho pensamento de cortá-lo atravessou sua mente… Nesses momentos, lembrava-se do rosto de sua mãe, raivoso pela simples possibilidade.

      — É como se… De alguma forma… Ela ainda estivesse aqui, entende o que quero dizer? Pode parecer loucura, mas… É como me sinto…

     Lívia notou que a psicóloga não movia um músculo de seu rosto, era angustiante, a mulher apenas absorvia suas merdas, ela entendia que fazia parte do trabalho, mas ainda assim… Era como conversar com uma parede, nos últimos dias, tudo era razão para que Lívia se irritasse.

    — Sua mãe morreu há quanto tempo?

    — 8 anos.

    — E mesmo com a morte dela, nunca pensou em cortar o cabelo?

    Sem entender o motivo de maneira súbita, Lívia começou a sentir-se ansiosa.

     — Sim, várias vezes, mas nunca tive coragem de fazer.

   — Por quê? Segundo você, ter todo esse cabelo não está ajudando, porque demanda tempo para cuidar e ele está incomodando você. Por que você manteria uma coisa que está incomodando?

     Ela desejou fortemente possuir uma resposta, mas acabou que não tinha. A sua médica tinha o hábito de dizer o óbvio, chegava a ser irritante.

     Lívia ficou parada na frente do salão, batia o pé freneticamente, não tinha coragem para entrar quando observava seu reflexo no espelho, sentia seu corpo tremer. Existia dentro dela aquela voz a alertando do erro, como se algo realmente ruim fosse acontecer depois disso, as pessoas a olhavam alguns com curiosidade outras admirações, ela conquistara o objetivo de muitas mulheres quando inventavam o que chamavam de projeto Rapunzel, o problema era que isso havia se tornado uma maldição… Ainda no reflexo embaçado da vitrine, o rosto de sua mãe, raivoso. Sempre o mesmo tipo de olhar. Aquele foi o seu sinal para seguir em frente, precisava se livrar daquelas amarras.

    No momento em que entrou no salão, a recepcionista a olhou estarrecida. Logo em seguida, ela notou a pena no olhar da cabeleireira. No entanto, a cada corte de tesoura, a cada fio derrubado no chão, era como se um peso fosse eliminado de suas costas. O alívio começou a se presente junto de outro sentimento, algo que não sentia há muito tempo: alegria. O brilho voltou aos seus olhos e seria a primeira vez em que veria seu rosto sem todo aquele peso. O barulho da tesoura ficaria gravado em sua memória, como um lembrete de que tudo finalmente melhoraria.

   Quando olhou novamente para o seu reflexo no espelho, achou que sentiria algo extraordinário, todavia a única coisa que sentiu foi… Nada… era apenas mais um rosto vazio. Não havia arrependimento, não havia infelicidade… Apenas… Um corte de cabelo.

    — Aí, meu Deus, Lívia!

    Ela já esperava uma reação exagerada de seus colegas. Seus cabelos estavam passando da altura do ombro, caíam em cachos perfeitos e agora, ruivos. Ela decidiu que, se era para mudar, que a mudança fosse drástica.

    — Seu cabelo continua incrível, Lívia. Ruivo é uma cor fantástica e lhe caiu extremamente bem.

    As mudanças não foram apenas estéticas.

    No dia em que cortou o cabelo, depois do trabalho, Lívia voltou para casa sentindo-se leve, apesar de, vez ou outra, ainda tomar os devidos cuidados que precisava quando o cabelo era longo. Por vezes, até se achou ridícula por fingir que seu cabelo imaginário poderia tocar uma poça de água na rua, duas pessoas a olharam assustadas no momento em que Lívia precisou dar a volta na água suja do esgoto que estava exposta. Uma vez em casa, sentiu-se pesada. Como se estar lá não fosse mais parte de quem ela era, o que no mínimo era engraçado, havia apenas cortado e pintado o cabelo e sentia-se alguém diferente. Ela demorou no banho, feliz por não ter que demorar uma eternidade por conta de seu cabelo.

    Se soubesse que seria assim, teria cortado antes.

    Esse pensamento atravessou sua mente diversas vezes durante o dia.

   Enquanto finalizava o cabelo, uma coisa estranha aconteceu. Lívia olhou para o cabelo e lhe pareceu estar maior, o que era loucura! Mas a impressão se tornou maior quando esticou um dos cachos, e o que deveria estar no mínimo em seu ombro alcançou sua cintura. Ela culpou o fato de encolhimento, culpou qualquer outra coisa, exceto o cabelo…

  No decorrer da semana, seu cabelo estava alcançando seu quadril. Ela tentou cortá-lo novamente, mas no outro dia o cabelo estava no exato lugar, às vezes chegava a descer mais. E o pior era que a tinta não fixava em seu cabelo, não importasse o que tentasse. De repente, todo aquele cabelo começou a sufocá-la… Não suportava olhar para o reflexo, não suportava senti-lo em sua pele…

    Suas noites estavam se tornando terríveis.

   Seu cabelo continuava a crescer sem controle, sua vida parecia ter se transformado em uma verdadeira bagunça. As pessoas a olhavam e tudo que viam era uma maluca que precisava ser urgentemente internada.

   Ela não conseguia dormir, não conseguia comer e, quando tentava cortar alguns fios para enxergar melhor, simplesmente não conseguia e, quando…

    Só havia uma solução, ela sabia disso.

   A meia-noite, os vizinhos de Lívia que moravam no andar de cima estavam jantando e, enquanto seu filho caçula contava aos pais como havia sido o seu dia, ouviram o disparo vindo do andar debaixo. A princípio, imaginaram que fosse alguém soltando fogos de artifício, mas houve outros disparos. Logo, os vizinhos foram para as portas de suas casas, pessoas preocupadas se perguntando e comentando sobre o assunto. Depois de uma semana sem terem sinais de vida de Lívia, decidiram ligar para polícia e avisar sobre o desaparecimento de Lívia Rodrigues, quando a polícia entrou no apartamento, não havia um único ponto no cômodo que não houvesse longos e grossos fios loiros, perfeitas ondas que dominavam completamente o piso. Encontraram Lívia em sua cama, era como se seu cabelo, além de ter ganho vida própria, também dominasse a cabeça da mulher. Ela estava apática e não conseguia mover um único músculo sem que o seu cabelo permitisse.


Autora: Maria Silva


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