A vizinha
A garota balançava a perna esquerda freneticamente, sentada numa cadeira desconfortável de ferro fria, ela roía as unhas até que o sangue escorresse por sua pele, seus olhos não focavam. Sua mente viajava. Como primeiro caso, alguns dos colegas do detetive Castro diria que foi uma ótima porta de entrada, mas para ele, aquele caso ficaria marcado em sua memória, infelizmente, não de uma maneira boa. Ele ainda não estava acostumado ao pior da humanidade. Nunca imaginaria que alguém com o rosto delicado, como de um anjo. Pudesse, na verdade, ser um terrível monstro.
— Será.
Seu colega empurrou em direção à garota de apenas vinte anos as fotografias da cena de crime, a idosa Maitê, com o corpo desfigurado… Castro sentiu seu estomago revirar apenas com a lembrança da imagem, foi possível sentir o odor de fezes e urina envelhecidas, estava prestes a vomitar, mas manteve-se firme. Por sorte, estava escondido na escuridão da sala fria de interrogatório, com as costas apoiadas na parede. Seu colega — próximo da aposentadoria — parecia tão adaptado àquele horror… o que o fazia se questionar quais outras atrocidades teria ele presenciado com aqueles olhos amendoados e frios.
— Está me dizendo que não conhece essa senhora e que, apesar de ter o sangue dela em seu corpo, pele em seu cabelo e ela ter sido encontrada na sua casa…
— Eu já disse!
A garota exaltou-se, empurrou de maneira brusca com o antebraço as fotografias.
— Vocês precisam acreditar em mim. Eu não fiz isso. Ela fez.
O desespero no olhar da garota chegou a comover Castro, talvez… apenas talvez… ela poderia… ele balançou a cabeça em negação, aos seus pés, a fotografia da senhora Maitê, o atormentando. De imediato, ele apanhou a foto e a pasta, jogou tudo num amontoado e jogou novamente na mesa. Ele não entendia as razões que faziam com que seu parceiro continuasse com aquele espetáculo, afinal, eles tinham provas e a garota havia sido pega em flagrante, ela seria presa, então por quê? Por que insistir em uma confissão? No momento em que viu o rosto de seu parceiro, notou que, por mais impassível que seu rosto parecesse, no entanto, ele não guardava tanta certeza de que a garota fosse uma criminosa.
Cinco anos depois, com o parceiro aposentado e um futuro casamento, Castro seguiu sua vida. Mesmo que o horror daquela noite ainda estivesse presente em sua memória.
— Júlia ligou — disse sua noiva, ela se mexeu desconfortável no banco do passageiro. Eram as últimas caixas da mudança, em breve, a casa pequena de Castro se tornaria o que seu velho costumava dizer como “casa de família”. A lembrança de seu pai o fez sorrir. — Ela disse que está animada para conhecer a “nova casa”.
O detetive de homicídios virou o rosto em direção à esposa. Estacionou o carro em frente à sua casa de dois quartos, um banheiro, cozinha e sala.
— Achei que iriamos pintar a casa primeiro antes de receber alguém.
— Você sabe como ela é.
Ele revirou os olhos, sim, ele sabia, Júlia, que sempre tinha uma opinião sobre tudo. Quando saiu do carro, notou que havia na casa do outro lado da rua um caminhão de mudança. Dois homens retiravam de dentro do caminhão um sofá de estofado marrom com uma grande mancha estranha. Castro não era um homem que acreditasse com facilidade em coisas absurdas, mas no momento em que viu a senhora próximo ao caminhão, um calafrio de alerta atravessou seu corpo. A velha o lembrou do caso de cinco anos, tinha o mesmo cabelo curto e branco natural, usava os mesmos óculos de armação redonda. As mãos da senhora estavam cruzadas e à frente do corpo, ela sorria macabramente em sua direção.
— Temos uma vizinha nova.
Sua esposa apertou seu ombro e acenou para senhora.
Ele não sabia o porquê, mas sentia em cada minúscula célula de seu corpo seus instintos gritando com toda a força, não havia a menor dúvida, a velha estava morta. Havia sido brutalmente assassinada, então, por que diabos ele tinha a sensação de que estava diante dela?
Todos os dias a velha senhora regava as plantas do jardim. Castro não sabia dizer o que, mas não gostava nenhum pouco da velha, talvez por lembrar um caso antigo, havia algo naquele sorriso macabramente alegre e aquelas bochechas gordinhas e rosadas.
— Bom dia, senhora.
— Bom dia.
Sua esposa costumava sempre ser amável, sentia pena porque descobriu que a senhora vivia sozinha, sua família toda estava enterrada e tudo que lhe restava, segundo ela, era a solidão.
— Vamos convidá-la para um jantar aqui em casa — disse sua esposa.
Castro não gostava da ideia de ter alguém tão estranha em sua casa, o porquê dela ser estranha? Ele não sabia. Apenas não gostava dela, mas como poderia dizer não para sua esposa? Ela estava grávida. E, na noite seguinte, quando voltou do trabalho, a velha senhora estava na sala enquanto sua esposa trazia da cozinha um copo com água.
Tão cedo ela foi embora assim que Castro chegou.
A noite uma chuva não prevista começou.
Castro observava através da janela, escondido entre as cortinas, a casa da velha senhora. As luzes ainda estavam acesas, depois do jantar aquela sensação estranha tornou-se ainda mais forte, ela tinha o mesmo nome, mesmo rosto… como era possível? Aquela velha estava morta, ele viu o corpo aberto dela, viu suas entranhas jogadas no chão, seu coração com tantos buracos. Sem mencionar na poça de sangue onde o corpo dela estava jogado. Não era possível.
Durante a madrugada, os trovões rasgavam os céus como a porra das trombetas anunciando o final dos tempos. Castro acordou depois de seu sono tranquilo, ouviu o barulho da água batendo rudemente no teto e janelas, ele se remexeu na cama tentando encontrar novamente o sono, sentiu algo frio e úmido tocar sua mão, por um momento imaginou que sua esposa houvesse urinado na cama. O quarto estava submerso no escuro, e quando os trovões iluminavam o céu, uma pequena e rápida fonte de luz ameaçava entrar no cômodo. Castro sentou-se na cama, a esposa estava deitada de lado com o travesseiro entre as pernas. Pensou em acordá-la, mas… ao puxar o cobertor, notou que não era urina, melhor que fosse, era sangue. Uma quantidade exagerada de sangue, procurou um ferimento em seu corpo e não o encontrou… não… ele levantou-se de um salto da cama, acendeu com as mãos tremulas as luzes do quarto…
Autora: Maria Silva

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