Conto - Obsessão

 


Obsessão


Todos os dias, Olívia fazia sua caminhada sagrada até o trabalho.

   Olívia não tinha carro, ela gostava de caminhar, gostava de interagir com as pessoas. Ela tinha o sorriso que você dificilmente não retribuía. Quando falava, ela olhava nos olhos, apesar de ser extremamente tímida, bem, se tratando de sua vida social, ela tentava deixar o mais privada possível, apenas tentava. Se não fosse por seu cachorro, um labrador retriever chamado Kevin, ela não teria nenhuma companhia, dizia que era melhor estar só do que mal acompanhada, isso era uma coisa que particularmente me fazia adorá-la ainda mais, sempre que sentia a ameaça de alguém tentando usurpar o meu lugar, o retirava imediatamente. A coitada, imaginando que o problema estava com ela… Sem fazer a mínima ideia de que havia uma pessoa a mantendo segura. Segura contra todos aqueles pervertidos e aproveitadores. Tudo o que fazia era surrupiar um celular, enviar uma mensagem de despedida para que não houvesse suspeitas e fazer com que o filho da puta desaparecesse da terra, assim, ela estaria segura.

    Eu sonhava com o dia em que ficaríamos finalmente juntas.

  Com o tempo, apenas a observar à distância tornou-se insuportável, precisava fazer algo. Fazer amizade com Kevin foi a parte fácil, tudo o que precisou foi de um sedativo num grande pedaço de bife bovino. O apartamento dela era pequeno, suas coisas sempre estavam em seus devidos lugares, como se ela sofresse de uma mania terrível de TOC, o que, de fato, se provou ser verdade. Por isso, fui cuidadosa, a última coisa de que precisava era criar pânico para aquela que havia roubado meu coração.

    Era a primeira vez que entrava em seu apartamento. O cheiro dela estava impregnado em cada parte daquele lugar, no entanto, o ápice foi quando adentrei seu quarto. Tudo estava meticulosamente em seus devidos lugares, os cobertores brancos possuíam um bordado detalhado. Foi inevitável tocar aqueles tecidos com o cheiro de lavanda… Rosas… Eu tinha que ir à lavanderia, roubar os produtos que ela usava… Precisava ter aquele cheiro gravado em minha mente, inalar o cheiro de seus travesseiros era como sentir o cheiro de sua pele… Apesar de não ser suficiente… Se tratando de Olivia, nada parecia ser o suficiente… Nunca estava próxima o suficiente, nunca a ouvia o suficiente… Nunca a sentia o suficiente… Foram anos a observando. Ela se mudou para outra cidade e foi desesperador quando a perdi por alguns meses… Tive que reformular toda a minha vida para poder viver esse momento.

    Estar ali, finalmente.

    Depois de seis meses, estava, por fim, pronta para uma aproximação.

  Instalei câmaras em lugares estratégicos e, acima de tudo, seguro. Assim, ela não as encontraria facilmente, e quanto a mim, teria a visão de cada movimento, cada ação rotineira, poderia até mesmo ouvi-la enquanto dormia. É claro, com o trabalho concluído, não poderia deixar de roubar algumas peças de roupa que estavam na cama, no quarto próximo a cabeceira estava sua leitura atual essencialismo a disciplinada busca por menos de Greg Mckeown, ela estava surfando naquela onda de minimalismo, deixando em sua vida apenas o que era realmente essencial e de importância, talvez fosse uma crise de idade já que Olívia havia recentemente atingido a casa dos trinta anos, estava se sentindo velha e indesejada, afinal, nenhum de seus relacionamentos conseguia seguir adiante.

    — Ultimamente, noto que tudo o que eles querem é me comer e me descartar como se não fosse nada.

    — Tente pensar pelo lado positivo — disse Santana, a melhor amiga de Olívia, elas estavam sempre juntas e, se não tivesse estudado Santana a fundo, àquela altura, ela estaria fazendo companhia a todos os outros. — Pelo menos existe alguém que quer comer você.

    Ela não fazia ideia de que estava sendo secretamente protegida por mim, o que, de certa forma, era deprimente. Queria que ela soubesse que nas sombras existia alguém tentando protegê-la, alguém que a amava de tal maneira que conseguiria matar, alguém que estava tão ansiosa por finalmente encontrá-la que todas as noites sonhava com o seu rosto, que imaginava como seria ter sua atenção e devoção, quando a contasse todas as coisas que fez por ela, todas as coisas que faria por e com ela… Talvez ela finalmente me enxergasse. Foi doloroso vê-la segurar no braço de outro alguém, ainda mais doloroso saber que ela passou a noite toda com um sujeitinho asqueroso, que outro alguém havia tocado sua pele e beijado seus lábios sem o meu consentimento. Mas ela saberia, ela finalmente iria compreender o que era ser amada por alguém, o que era ser desejada. Ela não teria que fingir que gostou da conversa, porque não havia um único gosto ou estranheza sua que não conhecesse, tinha a plena convicção de que nem mesmo a sua alma guardava segredos de mim.

    No banheiro, os produtos que Olivia usava diariamente, foi também no banheiro que encontrei um suvenir, uma calcinha preta tão pequena que me fez imaginar se realmente servia nela… Imediatamente a guardei no bolso de meu casaco, é claro que a peça iria parar no seu santuário…

    Olivia mantinha a geladeira sempre cheia, havia uma garrafa de leite pela metade, sobras do almoço que ela preparou. Ovos, queijo, muitos legumes… Ela era vaidosa e gostava de cuidar de si, uma das coisas que fazia com que a admirasse e me perdesse com facilidade. Ela era a minha ruína e, ao mesmo tempo, a minha salvação. Se não a tivesse encontrado naquele café, se não houvesse conhecido o poder e encanto de seu sorriso, a essa altura… Não… Na pia havia uma colher… Uma colher que não apenas havia tocado seus lábios, como havia sentido o calor de sua boca… Minhas mãos tremeram ao alcançar o metal frio, a coloquei num saco plástico que carregava sempre comigo. Caso ela deixasse algo para trás, sempre tinha como recolher e adorá-lo como uma divindade.

    Antes de deixar o apartamento com o peito mergulhado em alegria, verifiquei se as imagens e o áudio das câmeras estavam sendo enviados para meu celular da maneira que deveria. Felizmente, tudo estava em ordem. Kevin estava despertando e, quando Olívia voltasse para casa, reclamaria com o cachorro por ter, de alguma forma, conseguido surrupiar um grande pedaço de carne.

  Depois de uma semana com as câmeras instaladas, Olivia sequer tinha noção de que era vigiada, descobri que ser metódica era parte de quem ela era, e principalmente, o perfeccionismo que sofria, ela precisava que tudo fosse o mais perfeito possível, quando preparava uma comida e errava no sal, jogava tudo fora e se acreditasse que era minimamente comível, reunia tudo em uma vasilha e entregava a primeira pessoa em situação de rua que encontrava. Depois recomeçava tudo novamente, às vezes, ia para cama sem jantar por não conseguir acertar uma receita… Quando chegava do trabalho a primeira coisa que fazia era chamar por seu cão, afagava seu focinho e então se jogava no sofá onde cochilava por alguns minutos até procurar o que comer, ela ia semanalmente ao mercado que ficava próximo de sua casa, sempre realizando o mesmo trajeto, o que poderia ser considerado burrice, pois se tratando de perseguidores, eles poderiam facilmente sequestrá-la.

    Ah! Olivia, o que seria de você sem a minha proteção e cuidado? Bobinha.

   Quando a noite chegava, ela costumava beber um vinho nos dias em que não costumava sair com as amigas, ela gostava de preparar um banho quente, ligava uma música em um volume baixo e aproveitava seu vinho enquanto dançava, acabou que isso não passava de um ritual do que viria a seguir quando Olivia montava em seu travesseiro e o cavalgava como se fosse animal, e tudo o que me restava era desejar ser aquele travesseiro e os cobertores que a envolviam logo depois de seu orgasmo. Ela dormia serenamente e fazia dias que sequer tinha noção do que era uma noite inteira de sono. Por várias vezes, desejei ir até lá, invadir sua casa e finalmente saber como era tê-la em meus braços ao mesmo tempo, em que tinha certeza de que não seria aceita. Ela teria medo de mim.

    O dia em que finalmente a encontrei e me apresentei chegou mais rápido do que esperava.

    — Bom dia.

     Por um instante, tudo o que fiz foi paralisar, meus músculos enrijeceram, ela estava ali diante de mim com um sorriso típico de Olivia. Parecia agitada, suas mãos estavam tremendo. Trabalhar como segurança de seu condomínio acabou me possibilitando inúmeros privilégios.

   — Estava passeando com o meu cachorro e... Ele fugiu, acho que encontrou uma cachorra. Você poderia me ajudar?

    Apenas confirmei com a cabeça, minha voz ficou presa na garganta, me causando um desconforto descomunal. Ela estava ali tão próxima de mim e não havia sido o que planejei, talvez esse fosse o sinal do destino de que deveríamos e iríamos ficar juntas… Por toda a eternidade.

    Sabia exatamente onde o cachorro dela estava, porque eu o escondi… Eu o coloquei atrás da lixeira próximo ao seu prédio… Ela estava dando mais atenção a ele do que a mim… Ele precisava sumir de sua vida. A última coisa de que precisava era que ela fosse dependente emocional dele. Nos últimos dias, ela estava tão distraída em conversas por telefone que foi fácil atrair a atenção do cachorro e sufocá-lo até a morte. Eu sou a porra do destino que irá nos manter juntas…

    — Acho que ele pode estar em um encontro. — ela brincou porque não gostava de pessoas sérias, e no momento, eu precisava manter a pose até que revelasse que seu cachorro estava morto e pudesse finalmente abraçá-la, acolheria suas lágrimas. Obrigada, por me ajudar, obrigada por me manter segura e por estar sempre do meu lado… Como agradecimento ela me beijaria e finalmente iria saber o que era ser amada de verdade.

    — Tem certeza de que o deixou por aqui? — Perguntei, ela balançou a cabeça e seu cabelo deslizou para frente do rosto.

    — Sim, mas acabei me distraindo com uns vídeos bobos na internet, acha que ele pode estar longe?

   — Não se preocupe, vou encontrá-lo. — Prometi enquanto olhava em seus olhos, porque sabia que ela gostava de quem mantinha suas promessas, e de uma coisa eu tinha certeza, jamais faltaria com minha palavra com ela. A princípio, ela pareceu desconfortável com meu olhar, baixou a cabeça e, quando ergueu novamente, me entregou seu lindo sorriso angelical.

    Procuramos por uma hora até que outras pessoas se uniram na procura, mas não adiantava, eu…

    — Eu encontrei! — Gritou meu colega do beco.

    Ela e as pessoas correram até o sujeito. Quando viu o cachorro, o seu grito não me causou aflição ou piedade, pelo contrário, me revelou outro lado dela, um lado que conheceria… Ela chorou como esperado, mas não me abraçou, no meu lugar estava aquele infeliz que se meteu nos meus planos perfeitos. Ele a confortou, e a cada segundo que suas mãos deslizavam por suas costas, o nó em minha barriga apertava, a temperatura de meu corpo aumentava… Como ele pôde fazer isso? Quem ele acha que é?

    Exagerei… E percebi isso quando Olivia afundou em uma tristeza estranha. Ela passava boa parte de seu dia trabalhando, mas quando chegava em casa não havia nenhum ritual, apenas ela, largada no sofá enquanto chorava copiosamente a perda de seu animalzinho. Estava na hora de intervir… O barulho da campainha em sua casa despertou minha atenção. Eu estava na cozinha quando vi na tela Olivia caminhando em direção à porta, era aquele bastardo.

    — Vim ver como estava. Sinto muito por sua perda.

    Filho da puta… Ele precisa sumir

    Eles passaram duas horas conversando, exatamente duas horas, trocavam toques discretos, como se tivessem o costume de se encontrarem. A conversa foi de cachorro para família, e de família para amigos logo estavam falando sobre o que gostavam de fazer, todas aquelas merdas de conversa que aparenta ser profunda, mas que, na verdade, são tão vagas e fúteis que não passam de uma perda de tempo.

    Havia terminado de calçar meus tênis quando ele deixou finalmente a casa dela.

   Algumas vezes é preciso coragem para fazer algo de que não gostamos. Não importa se essa tal coisa poderia ferir alguém que amamos. Algumas lições precisam ser ensinadas.

* * *


     Olivia acordou na sexta-feira com a impressão de que algo de ruim aconteceria.

    Não era a primeira vez que essa sensação a rondava, fazia dois anos que ela convivia com aquela sensação horrível de que alguém a observava, seu psicólogo dizia que tudo não passava de coisa da sua cabeça. No começo, ela não deu tanta importância, afinal, como diriam suas amigas: você só está cansada, Olivia. Não poderia tirar a razão de nenhuma delas, a única coisa que fazia no decorrer dos anos era trabalhar, trabalhar e trabalhar, isso desde que sua vida social começou a misteriosamente desandar. Não conseguia manter-se estável em um relacionamento e sequer conseguia ter um relacionamento, às vezes, quando estava sozinha em seu quarto olhando para o teto imaginava-se na companhia de alguém, poderia ser a coisa mais solitária do mundo, mas, ao mesmo tempo, a reconfortava, todos os homens que tentavam uma mínima aproximação desapareciam após uma transa quando isso acontecia, houve um tempo em que ela realmente acreditou que a única coisa que os homens procuravam quando estavam com ela era sexo, o restante não importava. Nesses momentos, era inevitável, sentia-se como um pedaço de carne e por alguma razão idiota, não queria dar razão as feministas, ela mesma teve sua fase feminista até descobrir que existia mais separação no feminismo do que união e todo aquele papo de sororidade só atingia certos tipos de mulheres, ela ainda acreditava que igualdade era uma pauta a ser discutida, ela ainda tinha o feminismo do passado enraizado dentro de si, mas era algo que não lutava mais.

    Aquele medo de estar sendo vigiada retornou no dia em que decidiu, por alguma razão, organizar sua própria casa. Ela não queria admitir para o seu consciente que aquele desejo surgiu após conversar com um colega sobre minimalismo, o famosinho do momento. Ela queria sentir aquele vazio agradável em sua mente de que tanto falaram. Mesmo sabendo que esse dito “vazio” seria novamente preenchido por coisas e mais coisas, Olivia era uma consumista desenfreada e amava isso, apesar de, em alguns momentos, suas compras serem todas de coisas de que nunca precisaria, o fato é que Olivia gostava e podia gastar e o faria. E, apesar de ter encontrado em meio à bagunça, a antiga coleira de seu cachorro/filho, não foi isso que a deixou estática de joelhos no chão da cozinha, mas uma câmera sem fio. Seu coração não estava apenas acelerado, ela conseguia ouvi-lo e o fato de não possuir reação alguma, mesmo com as mãos trêmulas e a pele pálida, Olivia permaneceu parada de joelhos no chão. Então, todos aqueles anos em que sentiu desconfortável dentro de sua própria casa…

    O medo tornou-se ainda mais concreto quando a polícia realizou uma varredura em sua casa e achou mais de cinquenta câmeras instaladas pela casa, era como se a pessoa não quisesse ter pontos cegos no apartamento minúsculo em que Olivia vivia. Ela viveu acreditando que tinha o mínimo de privacidade, segundo os investigadores, quem quer que houvesse instalado as câmeras, não queria perder um único movimento. Ela não conseguia imaginar em quem em seu círculo social poderia fazer algo do tipo.

    E, apesar de os policiais garantirem que não havia nenhuma câmera pela casa, foi difícil tomar banho sem se sentir vigiada e ainda mais difícil quando deitou para dormir. Era apavorante saber que alguém em algum lugar conseguia vê-la…

    Como esperado, ela não conseguiu dormir.

   O mínimo de barulho imaginado ou vindo lá de fora a deixava com os músculos tensos, era difícil não pensar que a qualquer momento alguém entraria pela porta de seu quarto. Tentou de todas as maneiras adormecer, mas sempre que fechava os olhos, sua respiração começava a pesar e seu corpo a formigar, como se estivesse prestes a ter um ataque de pânico. Então, sentava-se na cama e tentava a todo custo dizer para si mesma que tudo estava bem. Mas ela sabia que não ficaria, a silhueta na porta de seu quarto a dizia isso, de um salto, ela levantou-se da cama e correu para porta, mas antes de conseguir trancá-la, alguém tapou seu rosto de maneira rude, o cheiro forte queimou suas narinas e secou sua garganta, a última coisa que viu foram longos fios de cabelo balançando suavemente.

   Ela estava perfeita. Ela é perfeita.

    Olívia continuava adormecida. Perfeita, perfeita. Quando acordasse, ela saberia meu nome, saberia das coisas que fiz para que ficasse sempre bem, das coisas que faria por ela. As expressões tranquilas dela se tornaram melhores agora que não as via por um monitor idiota. Era melhor ver seu rosto daquela forma, a cabeça dela estava deitada no travesseiro, o meu travesseiro. Ele ficaria com o cheiro do shampoo que Olívia usava. Sua pele era macia, mas não ousaria tocá-la sem a sua permissão. Soube da maciez de sua pele porque precisei carregá-la e inevitavelmente toquei sua pele, e foi como tocar o céu.

    Olívia se remexeu e murmurou alguma coisa inteligível. No entanto, não despertou. Cheguei a pensar que havia exagerado, mas não… Será que ela iria gostar de mim? Lembrei que havia suado e que precisava de um banho, levantei apressada da cadeira e fui para o banheiro. Não me perdoaria caso ela não acordasse… Mas, quando liguei o chuveiro, ouvi os gritos vindos do quarto, bobinha… Olívia estava desperta. No começo, enquanto planejava tudo, não imaginei que fosse ficar tão nervosa, mas agora, estava com um frio na barriga, como se milhares de borboletas dançassem em meu estômago.

    Pode gritar bobinha, ninguém ouvirá você.

    Borrifei algumas vezes o meu perfume, e enquanto escovava os cabelos, os gritos cessaram. Em seguida, ouvi algo que me preocupou, como se Olívia estivesse engasgando. Corri para o quarto e a encontrei se afogando no próprio vômito. O desespero me fez correr até ela, virar seu corpo de lado, achei que fosse perdê-la e o medo me fez quase… Quase… Soltar as amarras de seus braços, o rosto de Olívia estava roxo, mas gradualmente foi voltando ao seu tom normal, seu rosto estava sujo de vômito.

    Além de bobinho, é uma porquinha.

    Uma vez de volta ao normal, Olívia me olhou horrorizada. Doeu, de uma forma profunda, ela não me reconhecer. Depois de tudo que fiz por ela. Agora, isso era apenas um detalhe. Ela se apaixonaria por mim.

    — Por favor… — Ela disse, implorando, sua voz chorosa era de partir o coração — Não me machuque…

    Como ela ousava? Quantas vezes a mantive segura!

    — Por favor — ela repetiu.

    — Você não lembra de mim? — Perguntei, mesmo já sabendo da resposta. Era óbvio.

    Olívia balançou a cabeça negando. Eu esperava mais de você.

    — Não se preocupe… Você ainda vai me conhecer e vai me amar da mesma forma.

    — Vo-você ficou maluca? Me solta, agora!

    Ignorei os gritos e pedidos de socorro, meu peito estava doendo, não era possível que, depois de tudo que fiz, ela sequer lembrasse do meu rosto. Tranquei a porta, apesar de ter plena convicção de que Olívia jamais se libertaria das amarras. Apesar de tentar viver uma vida saudável e regrada em dietas, Olívia era fraquinha. A casa que construí foi inteiramente desenhada para esse momento, ficava longe da cidade, e ainda assim, preparei o quarto em que pus Olívia com abafadores de som. Ela poderia gritar até que sua garganta explodisse, ninguém a ouviria, enviei uma mensagem do seu celular para suas amigas avisando que estava muito triste pela morte do “meu doguinho”, portanto, decidi fazer uma viagem à praia, porque era o lugar em que Olívia encontrava paz, segundo ela própria. Então, até sentir a falta dela e se preocuparem se ela teria feito uma besteira nessa tal viagem, não teria que me preocupar com absolutamente nada. A essa altura, Olívia estaria apaixonada por mim e estaríamos viajando para o mais longe que pudermos.

    Quando era criança, conheci uma garota chamada Mikarla, ela morava a dois quarteirões de distância da minha, todos os dias eu a seguia até em casa, assim como Olívia, ela sempre realizava o mesmo caminho. Um dia, Mikarla caiu da ponte que cortava o lago a caminho de casa, não havia ninguém, além de mim, ao seu socorro e ela finalmente me notou. No entanto, vê-la se debater enquanto lutava para não afundar devido ao peso dos livros na mochila me pareceu mais entretido. Seus braços pequenos subiam e desciam com violência, e seu rosto estava ganhando uma coloração estranha, ela tossia…

    Eu a resgatei porque percebi que perdê-la seria o mesmo que perder aquela sensação de preenchimento. Não houve um obrigado ou qualquer coisa do tipo, a família dela estava possessa, segundo eles, não era normal que uma criança apenas assista que outra se afogue. Meus pais ainda tentaram reverter a situação, mas isso não impediu que a família dela se mudasse.

    Eu deveria tê-la matado afogada no lago.

    Na adolescência, foi a vez de Ângela, ela trabalhava em uma banca de jornal e era mais velha. Diferente de Mikarla, Ângela me via. Todos os dias ela me trazia café e dizia que não deveria contar a ninguém, porque eu era “criança demais”. Os seus comentários sempre vinham com um que de segundas intenções, ou pelo menos, era no que acreditava. Até aprender a “entender os sinais” demorou um tempo. Não demorou muito para Ângela aparecer com um namorado, eu o odiei com todas as minhas forças. Sem saber que este mesmo sujeito seria minha porta de entrada para outros vícios.

    Quando matei o tal de Jonas, foi a coisa mais aleatória que fiz em toda minha inútil vida com apenas quinze anos. Ele era o tipo de cara que não conseguia se conter em apenas desejar uma mulher, ou neste caso, uma garota. Ela tinha que tentar comer a garota, independente de estar comprometido ou não e comigo não foi diferente, tudo que precisei foi demonstrar interesse nas conversas fúteis e sem sentido que o seu cérebro limitado e fodido por uma quantidade exagerada de pornografia poderia oferecer, ele era tão manipulável ao ponto de cair no papinho de uma garotinha inocente de quinze anos. Levei para a mesma ponte em que Mikarla quase morreu afogada. Estava com medo de ele saber nadar, e por isso, esperei que ele sentisse tão confortável comigo ao ponto de deixar sua guarda baixa. Quando o fez, achando que conseguiria dormir comigo, acertei sua nuca em cheio com uma pedra pontiaguda. O sangue tocou meu rosto e foi o suficiente para que tudo fizesse sentido, era quente e aveludado. O corpo de Jonas caiu aos meus pés e o poder que isso me proporcionou foi como se o próprio Deus estivesse comigo. O empurrei com o pé e seu corpo a princípio boiou no rio, mas logo começou a afundar lentamente. Assistir ao seu corpo desaparecer, e assim, foi-se o fim de Jonas.

    Encontraram o corpo dele, sete dias depois, estava desfigurado e irreconhecível. Só sabiam que era ele devido à identidade. Ao que parecia, alguma coisa tentou comer o rosto dele. Foi difícil não rir enquanto Ângela contava sua história, abalada demais… ofereci todo o meu suporte, mesmo sabendo que guardava debaixo da minha cama a pedra que usei para matar seu ex-namorado.


Autora: Maria Silva


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